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thegreysideofme...

Blog interactivo dedicado a histórias do fantástico, terror ou simplesmente cinzentas


(segunda-feira, agosto 22, 2005)
+18:41

# Conto1: Sem todos os berlindes...



Não há ninguém na rua a esta hora, foram para as suas casas jantar, reunidos com as suas famílias. Para o pequeno Jorge não há descanso enquanto não finalizar a sua busca. Roubaram-lhe os berlindes e espalharam-nos pela rua. Neste momento, falta encontrar o seu berlinde da sorte, o seu "sopro" de vitória.

Já estava um pouco longe de casa. Tinha saído para comprar na mercearia da aldeia óleo para o jantar. O seu azar tinha sido encontrar aquele grupo de miúdos que tanto odiava, visto que não perdiam uma oportunidade para gozá-lo e de pregar-lhe as mais duras partidas. Jorge sentia-se triste nesses momento. Não havia amigos para gostar dele, e ele desejava tanto poder gostar de algum amigo. Os seus pais já eram velhos demais para o ritmo dele, não conseguiam brincar ou até mesmo acompanhá-lo durante os passeios. Eles também não o entendiam, pois preferiam tê-lo em casa do que deixá-lo sair para ser o alvo dos outros miúdos. Nesses momento Jorge sentiam-se vermelho de vergonha e de raiva. A injustiça que achava que era alvo retraía-o ainda mais, e acumulava o seu grito mudo.

Foi assim hoje, quando os outros miúdos cruzaram no seu caminho, quando voltava da mercearia. Num ápice que não deu para perceber, sacaram o saco de compras onde trazia o óleo de cozinha, e noutro momento, roubaram-lhe o saco de berlindes que trazia sempre, para dar sorte. O pequeno Jorge não prestou sequer atenção às compras, dirigindo-se logo para o Américo, o pior de todos os miúdos, que levava os seus berlindes para longe. Um a um, ele foi espalhando-os pelo caminho, a cara cheia crueldade diante do desespero da sua presa. E Jorge foi ficando para trás, apanhando todos os berlindes que dançavam no chão, e esperando que o próximo fosse o seu "sopro". Neste momento, era o único que faltava, e a aldeia já estava um pouco longe para ele, a quase três quilómetros.

Enquanto procurava, de cabeça para o chão, o pequeno Jorge não notou a aproximação de um adulto. Em passos curtos e silenciosos, a nova figura viu-o naquela situação, e sem pronunciar nada, aproximou-se. O primeiro contacto aconteceu quando puxou o braço do pequeno Jorge. Já era noite, e naquela rua de terra não iluminada, junto à aldeia, não dá para perceber-se com clareza quem falava. Além disso, o pequeno Jorge já estava um pouco cansado. Porém, aquela figura conhecia-lo. Pela voz percebia-se que era um homem que perguntava-lhe continuamente o que ele fazia ali, se andava à procura de alguma coisa que tinha gamado, porquê é que não estava em casa, porque é que não ficava em casa em vez de perturbar as gentes da aldeia... Falava com uma voz bruto, sendo um homem rude, e aparentava estar ligeiramente tocado pela bebida, contudo isso foi algo que o pequeno Jorge nem se apercebeu, mantendo toda a sua atenção virada para o chão, poderia ser desta vez que encontrasse o seu "sopro". Sem obter qualquer resposta, e nem qualquer reacção, levou aquele homem à irritação. Incapaz de ser paciente, puxou-lhe brutamente o braço, à medida que procurava caminhar. O pequeno Jorge sentindo o pressão, ainda reagindo com um lamento de quem quase chora. Ele não queria sair dali e efectivamente não iria sair dali. O homem não aceitou as resistências que lhe eram oferecidas e virando-se procurou agarrar o único braço livre do pequeno Jorge. Ao sentir-se preso, fez com que Jorge finalmente desse alguma consideração ao captor. Este queria afastá-lo do seu "sopro", mas não viveria sem o seu "sopro". Sem o seu amuleto para o acalmar, a vergonha desapareceu, e a raiva acumulada libertou-se. Numa série de movimentos, o pequeno Jorge conseguiu resistir aquele corpo ligeiramente cambaleante, e sem qualquer intenção prévia, num desequilibrio, ambos cairam nos chão, o homem por debaixo e Jorge por cima. Num instante Jorge olhou para o homem e viu olhos que odiava, no outro, o homem caído dilatou a retina à medida que sentiu bater a pedra que se aproximava. E a pedra bateu várias vezes na mão de Jorge.

Quando Jorge parou, reparou numa esfera que estava mesmo nas ervas, no limiar do caminho. Aproximando-se reparou que era o seu "sopro". Agora estava completo e com o sentimento de dever cumprido e correu para casa. Entrando em casa, levou ainda um raspanete dos pais que preocupados com a sua demora, já se preparavam para chamar a polícia. Foi tomar banho imediatamente e jantou sem comer sobremesa, visto ter ficado de castigo.

A meio da noite, a calma da aldeia fora interrompida. O corpo do Joaquim Azeitona, teria sido encontrado na estrada de terra que levava à aldeia. Deixava sem sustento a sua mulher Fátima de Jesus, o seu filho de quinze anos Daniel, e o seu pequeno traquina Américo de 8 anos. A guarda fora chamada e falou com alguns dos residentes. Maria do Anjos, a mãe de Jorge, afirmou perante a guarda que todos teriam estado na quarela de terra que teriam nas traseiras de casa, e que só o seu pequeno filho teria saído para ir à mercearia, voltando passado 15 minutos depois de ter saído.

Ao bater a porta, a mulher ainda procurou enconsto na mesma. Não tinha a certeza absoluta, somente dúvidas. Virando-se viu o rosto daquele menino, aquele pequeno rosto que nunca tinha crescido. Terno e bom filho aos 18 anos, era aquilo que todas as mães gostariam: uma criança eterna, muito graças ao atraso mental, que afectava-lhe a personalidade. Um corpo de adulto com um espírito de criança. Entre o medo e a esperança de estar enganada não parou de olhá-lo, enquanto este brincava com os seus berlindes, derrotando todos com o seu "sopro".


e a história termina assim; |
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